Eleições guardadas em quartel da PM

Fonte: Diário do Comércio (01 de Fevereiro de 2009)
Link: http://www.diariodocomercio.com.br.


Eleições guardadas em quartel da PM

TRE quer transformar antigo quartel da PM no Glicério, que está abandonado, em museu. Local abrigaria história das eleições e dos ex-combatentes da Segunda Guerra.

Por Ivan Ventura - 26/1/2009


A lista de projetos para a restauração do quartel da Polícia Militar, o antigo Segundo Batalhão de Guardas, no Glicério, região central, ganhou recentemente novas ideias voltadas à preservação do imóvel, tombado pelos órgãos de patrimônio histórico municipal e estadual. Pelo menos quatro destinos já foram aventados para o local. O mais recente deles veio do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE), que também manifestou o desejo de restaurar o quartel. A proposta é construir um memorial das eleições no Estado.

"O lugar poderia funcionar como um memorial e abrigar o mais variado tipo de acervo. Seria possível levar o material do TRE, o acervo da Revolução de 32 e até o dos ex-combatentes paulistanos que lutaram na Segunda Guerra Mundial", diz José D'Amico Bauab, um dos responsáveis pelo Centro da Memória Eleitoral (Cemel) do TRE. "Ou seja, seria um multimuseu", acrescentou.

O projeto de restauração idealizado pelo Tribunal já está pronto. A proposta obteve recentemente o apoio de integrantes da Associação de Amigos e Reservistas do Segundo Batalhão de Guardas.

Deterioração - O local foi repassado à Polícia Militar em 31 de dezembro de 1995. Desde 1999, algumas ideias foram discutidas, mas, pelo menos por enquanto, não há nada certo sobre o destino do imóvel, que está em estágio avançado de deterioração. Algumas partes do complexo foram até interditadas pela Prefeitura. O imóvel já abrigou, antes de passar para a PM, o quartel do Segunda Batalhão de Guardas do Exército, durante o regime militar, e já foi usado até como hospital psiquiátrico, abrigando os primeiros pacientes do hospital do Juquery.

Os policiais militares que trabalham atualmente no quartel desejam a restauração do imóvel, mesmo que duvidem que o espaço seja realmente recuperado. Eles testemunharam, por exemplo, a promessa da ex-prefeita Marta Suplicy de transformar o lugar no Museu de São Paulo, primeira iniciativa concreta de restauro do local, em 1999. Marta afirmou que gostaria de erguer o memorial em homenagem aos 450 anos de São Paulo, mas o projeto acabou abandonado.

Forças Armadas - No ano passado, durante a campanha à reeleição, o prefeito Gilberto Kassab disse que pediria a posse do terreno ao governo do Estado e transformaria o local em um museu - sem especificar a temática do espaço. "Ele disse isso em setembro, em encontro com integrantes da Associação dos Amigos e Reservistas do 2º BG. Estamos confiantes", afirma Cloves Xavier Roque, presidente da entidade que representa os ex-militares do antigo quartel.

A entidade defende a transformação do imóvel em um Museu das Forças Armadas, que receberia antigos artefatos bélicos usados pelos brasileiros na Segunda Guerra Mundial, entre outras peças.

Outro projeto é o da ONG Educa São Paulo, que defende a recuperação do local para construir um centro de integração e desenvolvimento social para moradores de rua. No fim do ano passado, a entidade encaminhou uma carta ao presidente Luis Inácio Lula da Silva pedindo a criação de um abrigo para os sem-teto no antigo quartel do Exército.

Reforma- Seja qual for o projeto vencedor, os interessados devem correr com os seus projetos, pois o local precisa de uma urgente restauração. A reportagem do DC não obteve autorização da PM para entrar no local, por causa do risco de desabamento de algumas partes do complexo.

Fotografias tiradas por integrantes da associação do 2º BG, há dois anos, mostram edificações sem o teto, muita umidade e grama alta, entre outros problemas. "Em dois anos, as rachaduras aumentaram e a grama está mais alta. É obrigação dos órgãos que tombaram fiscalizar o estado do imóvel", reclama Roque Xavier.

Para o arquiteto e urbanista da FAU-USP Nestor Goulart Reis Filho, o quartel é uma das últimas grandes estruturas ainda disponíveis no Centro. Para ele, o uso tem que ser compatível com a estrutura do local e, por isso, não deveria abrigar um museu. "Um projeto para uso pesado ou com número grande de pessoas circulando na região exigiria adaptações que os prédios não suportariam. Já uma repartição pública tem baixo impacto de população circulante", afirma.